Quem tem medo de terapia?

Falta de fé, coisa de “doido”, coisa de gente fraca. Essas são apenas algumas das “justificativas” usadas pelas pessoas que se recusam a aceitar ou procurar um acompanhamento psicológico. Segundo dados da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas Brasil) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), as condições de saúde mental são responsáveis por 16% da carga global de doenças e lesões em pessoas com idade entre 10 e 19 anos. Os dados revelam ainda que a depressão é uma das principais causas de doença e incapacidade entre adolescentes e que, em todo o mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno.  Mas, mesmo diante de dados preocupantes e campanhas de conscientização, as pessoas relutam em falar sobre questões psicológicas.


A psicóloga Karla Lima (CRP 11/2479) diz que acompanhamento psicológico definitivamente não é coisa de “doido”. Ela explica que o que se entende, de maneira grosseira, por “loucura” é a esquizofrenia. Essa doença se caracteriza pela manifestação de comportamentos que parecem não ter ligação com a realidade. Karla acredita que o ritmo de vida atual é um fator que contribui consideravelmente para que as pessoas se tornem mais ansiosas.  “A gente está vivendo, os anos vão passando e as pessoas vão ficando cada vez mais ansiosas porque estamos num ritmo muito corrido, muita coisa acontecendo por causa da globalização”,explica.

“EU NÃO PRECISO. MEU PSICÓLOGO É DEUS”

Embora o fluxo acelerado e massivo de informações contribua para o comportamento ansioso, é através desse conteúdo que muita gente compreende a função da terapia. “Tem um lado negativo dessa chuva de informações, mas a gente também tem o lado positivo que é as pessoas terem como saber mais das coisas. Pelo fato de hoje em dia ter psicólogos em quase todas as escolas, de terem esse diálogo, as pessoas conhecem [a psicologia] e tem uma maior chance de os adolescentes quererem procurar esse serviço [o acompanhamento psicológico]”, conta.


Além de conhecer e compreender a atuação de um psicólogo, ela diz que é importante que as pessoas observem sempre seus hábitos e a sua rotina  para que possam averiguar se as alterações que aparecem no cotidiano estão sendo prejudiciais. “A gente vê que tem algo sério quando você não está conseguindo fazer coisas normais do dia-a-dia. Quando você percebe que aquilo está começando a atrapalhar seu sono, sua concentração… Você não consegue mais nem ler um capítulo de um livro sem se desconcentrar ou está em sala de aula e não consegue filtrar nada do que está acontecendo… São pequenos sinais de coisas que são comuns no seu cotidiano e que você vai vendo que tem alguma coisa que está te perturbando, que você não está conseguindo fazer as coisas direito ou que está sentindo angústia. A situação não explode, assim, do nada. Você vai percebendo”, alerta.

Em relação à religião, Karla diz é válido que o paciente tenha uma crença que atue de maneira terapêutica, mas que é preciso haver a consciência de que a saúde mental precisa de acompanhamento especializado. “É ótimo que seja algo terapêutico para você porque é [algo terapêutico]. Viajar é terapêutico, ler um livro é terapêutico, ouvir uma música que você gosta, estar com as pessoas que você gosta… Lhe faz bem, então é uma coisa que a gente [psicólogos], obviamente, vai incentivar. Mas, não nessa perspectiva de cuidar efetivamente da sua saúde mental, que é algo que a gente acha bobagem, vai deixando pra lá, vai botando umas coisas por cima, até que chega um momento que eclode. Tem muita gente que procura a clínica quando a coisa já saiu totalmente do controle”, orienta.

CASTELO DE AREIA: QUANDO O AMBIENTE DE CASA PREJUDICA A EVOLUÇÃO PSICOLÓGICA

Segundo a psicoterapeuta, é um engano achar que as crianças não percebem os conflitos familiares e que elas não reagirão a estas situações. Ela diz que, inclusive, os sintomas podem aparecer no momento em que a crise está acontecendo ou tempos depois. Por isso, é importante que os pais dialoguem com seus filhos e reconheçam os conflitos existentes tanto na relação de casal, quanto individualmente. “Se os pais, por exemplo, ao decidirem se separar, procurassem uma ajuda para o filho para ele conversar sobre isso, se começassem a dialogar, as coisas seriam muito mais tranquilas porque ia haver um  entendimento. A criança ia aprender a lidar com aquele processo que ela está passando. Por mais que a gente ache que esconder coisas das crianças vai evitar que elas sofram, não vai. Porque ela percebe, ela sofre. O sintoma pode não aparecer na hora, mas lá no futuro, uma crise de enxaqueca, pode ser resultado disso. A falta de diálogo dentro da família é um grande agravante”, afirma.

A psicóloga acredita que os pais (permanecendo casados ou não) que pretendem auxiliar no processo de terapia dos seus filhos também devem iniciar um acompanhamento psicológico e, de preferência, antes mesmo da criança. “Não adianta a gente estar cuidando da criança se os pais em casa vão continuar a mesma coisa, não vai mudar em nada. A criança vai chegar ao ponto que vai evoluir e vai regredir tudo de novo porque o ambiente que ela convive todos os dias é dentro de casa. Então, de que adianta passar uma hora por semana trabalhando com aquela criança, tentando ajudar de alguma forma, tentando estimular que ela use a criatividade para sair daquele sofrimento, se na casa dela vai continuar a mesma pressão? As mesmas brigas? O que eu acho importante é que os pais, realmente, se sensibilizem e percebam que eles têm que se cuidar também. Antes mesmo de levar a criança, é importante que eles procurem ajuda”, reforça.

Karla diz que é preocupante o número de adolescentes que praticam cutting ou automutilação. Essa prática se caracteriza quando o paciente machuca o corpo com o intuito de  tentar canalizar algum sofrimento emocional. “É grande a quantidade de adolescentes que se cortam, que já tentou suicídio e que ninguém da família sabe porque eles não têm oportunidade de diálogo. Eles sempre alegam isso: ‘eu não tenho abertura’.  Vão falar para o pai, para a mãe e eles acham que é frescura.  A angústia [dos adolescentes] é tão forte, que eles preferem sentir a dor física. Em casa, que é um lugar de ser acolhido, é onde sofrem mais repressão”, conta.

QUEM JÁ FOI PARA O DIVÃ

Katiuscia Duarte tem 41 anos, é comerciante e, há mais ou menos oito anos, faz terapia. Ela diz que o que a motivou a procurar esse auxílio foram crises existenciais e, em 2014, outro motivo que a fez permanecer, foi o fato de ter se tornado paciente oncológica. “A terapia mudou minha vida. Me aceito mais, pondero, me cuido, não me cobro tanto… Tenho mais empatia (tento ter)”, conta.

Vitória de Freitas faz terapia há três anos. A estudante de Medicina Veterinária tem 22 anos diz que, na infância, chegou a ter também um acompanhamento psicológico. Ela diz que resolveu procurar ajuda por se sentir desconfortável com sintomas de ansiedade. “Na verdade, eu procurei quando minha ansiedade estava em um nível patológico já. Foi aí que comecei um tratamento com psiquiatra e com psicólogo”, conta.  Vitória confessa ter tido medo, num primeiro momento, de procurar apoio. “Morria de medo. Lembro que na minha terceira ou quarta sessão, a psicóloga disse que não conseguia me acessar. Foi aí que comecei a me abrir mais. Até hoje tenho um certo receio da terapia, porque mexe muito com a gente. Às vezes, eu vou obrigada (eu mesma me obrigo a ir porque sei que preciso). Nem sempre é prazeroso, mas me ajuda a ter qualidade de vida”, diz. Vitória diz que hoje se sente mais consciente, mas ainda lida com sofrimento psicológico. “Me sinto mais consciente. Não vou dizer que não tenho mais nenhum sofrimento psicológico, porque seria mentira. Mas hoje eu sei lidar melhor com os problemas. Eu amadureci muito nesse sentido. Acho que o maior objetivo de qualquer processo terapêutico é esse: não é nos deixar felizes, conformados. É fazer a gente amadurecer e conseguir lidar melhor com a vida”, avalia.

A psicoterapeuta ressalta que o processo terapêutico não é linear e que é importante reconhecer as pequenas consquistas. “O processo às vezes vai para frente, vai para trás, os sintomas voltam… Não é linear. Outras coisas vão acontecendo na sua vida, não tem como a gente prever e achar que porque começou a terapia tudo na sua vida vai dar certo. A gente tem que aprender a comemorar os pequenos passos e a gente tem a mania de não fazer isso. Você conseguiu fazer alguma coisa que pode ser pequena pra qualquer outra pessoa, mas é uma conquista sua”, ressalta.

Se você quer saber mais sobre o atendimento psicológico, pode entrar em contato diretamente com a psicóloga Karla Lima pelo telefone (88) 99946-5596.

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Renata Linard

Jornalista, formada pela Universidade Federal do Cariri. Apaixonada pelo universo do bem-estar e do autoconhecimento.

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